Palavra do Pastor


Dom Zanoni Demettino Castro 
                                                           Março/2019




Evangelização e Pastoral Afro
Dom Zanoni Demettino Castro
Arcebispo de Feira de Santana, Bahia
Bispo referencial da Pastoral Afro Brasileira
          
     Ide fazei discípulos todos os povos”(Mt 28,19). Esta é a missão que o Nosso Mestre e Senhor, Jesus Cristo, nos confiou. Fiel a este mandato, a Igreja da América Latina e do Caribe, no caminho aberto pela V Conferência de Aparecida, se propôs realizar, com todas as suas forças vivas, o ambicioso projeto de uma Missão Continental. Como enfrentar este desafio em nossas Igrejas particulares?
A Pastoral Afro Brasileira, tendo presente o Dia Nacional da Consciência Negra e a profética Declaração da Década do Afrodescendente (2015-2024) pela Comunidade Internacional, reconhecendo que os povos afrodescendentes representam um grupo distinto, cujos direitos humanos precisam ser promovidos e protegidos, levanta uma importante questão: Como anunciar o Evangelho de vida e salvação a todo este povo? Como dar uma notícia boa a essa gente?
      São cerca de 200 milhões de pessoas que se auto identificam como afrodescendentes nas Américas. O texto base de preparação ao XIV Encontro de Pastoral Afro americano, realizado em Cali na Colômbia afirma que 10 milhões de africanos foram escravizados nas Américas entre 1492 e 1870”[1], de fato, “foi uma das maiores e mais complexas empresas marítimas e comerciais da história, que trouxe nossos irmãos e  nossas irmãs para o trabalho forçado nas plantações de tabaco, cana-de-açúcar, café , algodão, arroz, em minas de ouro e de prata e ao serviço doméstico.[2] Quase metade dos africanos que cruzaram o Atlântico veio da África Central. Eles foram para todos os lugares: de Buenos Aires a Colômbia e Peru, ao vasto Caribe, assim como Suriname e as Guianas, e a região costeira dos Estados Unidos, de Nova Orleans a Nova York, até alcançarem, finalmente, a Nova Escócia, no Canadá. Isso contrasta de certa forma com os africanos da Costa Ocidental, que tenderam a se estabelecer em pequenos núcleos: Bahia e Haiti, vindo da planície da Guiné, ou Jamaica, por povos oriundo do que é hoje considerado Gana.[3]
         Foram trezentos anos de escravidão, um crime de lesa humanidade, que até hoje não foi suficientemente reparado. As condições sociais dos afro-descendentes, comprovadamente adversas, decorrem desta realidade e do posterior processo de exclusão dos negros dos mecanismos de inserção social. [4] No Brasil, o Estado não efetivou nenhuma política de apoio à população negra que emergia da servidão. A escravidão passou, porém ficou para a população negra a realidade de marginalização e pobreza.[5]É alarmante a desigualdade entre a população negra e a população branca. O índice de analfabetismo na população negra é praticamente o dobro. Os negros tinham menos oportunidades de emprego do que os brancos. A Igreja do Brasil tem chamado atenção para essa terrível realidade do povo negro. Recentemente, no Brasil, em audiência pública, na Câmara Federal, representantes do Governo e de organizações sociais afirmaram que o número de jovens negros assassinados no país é três vezes maior do que o de jovens brancos e destacaram que todos são afetados pelo genocídio da população negra no Brasil.
Como cuidar deste povo? Como zelar dos pobres e abandonados? Na Igreja, chamamos de Pastoral a ação que tem esse fim. Pastoral é a evangelização no seu sentido pleno. Evangelizar é a missão da Igreja, “anunciando o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus” [6] Jesus Cristo, o Bom Pastor, que veio para que tivéssemos vida em abundância. (Jo 10,11-14). Nele, se fundamenta toda a ação evangelizadora. Neste sentido, a Pastoral Afro é o pastoreio de Jesus, a ação do seu corpo, a Igreja, junto ao povo negro, compreendendo sua cultura de origem africana presente em nosso Continente.
        Desde Medellín (1968) o conceito de evangelização é ampliado. Promoção humana e libertação são elementos constitutivos deste processo.[7] A vida concreta das pessoas, o cotidiano pessoal e social é conteúdo essencial do anuncio do Evangelho. O homem a ser evangelizado não é um ser abstrato, é sim um ser concreto condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos[8] As pessoas são o eixo central da evangelização. O próprio Jesus Cristo, iniciando sua missão pública na Sinagoga de Nazaré, retoma a profecia de Isaias, identificando seus destinatários: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me conferiu a unção; a anunciar a Boa Nova aos pobres me enviou (Lc 4,18,cf Is 61,1). Esta é a missão de Jesus, esta é a missão da Igreja. Ela deve atingir, como nos ensina São Paulo VI, modificando por sua força, os critérios de julgamento, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamentos, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio de salvação.[9]  A  ação do homem para sua libertação integral, o seu emprenho na busca de uma sociedade mais solidária e mais fraternal e, sobretudo, as lutas pela justiça e pela construção da paz são elementos constitutivos da ação evangelizadora da Igreja.[10] Neste contexto, o Evangelho é anunciado, a cultura do povo é assumida e a redenção acontece. Nesta perspectiva, entendemos muito bem a afirmação de São Gregório de Naziazeno,  que aquilo “que não é assumido não é redimido”.[11]
        Assumir a concretude da vida do nosso povo, a realidade sofrida da nossa gente é o grande desafio da ação evangelizadora da Igreja neste mundo pluralista e secularizado[12]. A fé cristã não pode ficar indiferente às situações de miséria e opressão em que vive a maioria da humanidade: o trabalho escravo, as pressões sociais e políticas de todo tipo, a exploração do homem sobre o homem, e também as alienações que se exprimem na injustiça, na fome, na pobreza, no isolamento, condições nas quais vivem a grande maioria das populações[13].
         A Pastoral Afro deve despertar em toda a Igreja o cuidado com essa gente sofrida. É o povo que constitui uma das raízes da identidade da gente latino americana. Conduzi-lo à libertação plena e integral é a finalidade da Pastoral Afro. Como Igreja, somos desafiados a “conhecer os valores culturais, a história e as tradições dos afro-americanos,  entrar em diálogo fraterno e respeitoso como eles, é um passo importante na missão evangelizadora”[14] A Pastoral Afro tem a responsabilidade de conseguir que os valores do Reino de Deus sejam fermento no processo de gestação do novo modelo cultural. Ajudar que o compromisso com o povo negro, assumido em Aparecida, permaneça no horizonte evangelizador da Igreja. [15].


 
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